daqui uma hora:
" Estou fazendo aniversário. Consegui viver mais 365 dias.
Dias pares e dias ímpares, dias solteiros e dias casados. Foram 365 dias
marcados num calendário que só tem o hoje. Mas foram 365 hojes.
Tem gente que se esconde no dia do aniversário. Não
atende nem telefone. Pelo menos, essa atitude é econômica para os
amigos: não é preciso comprar presentes. Outros fingem que se esquecem
do próprio aniversário. Você chega, dá os parabéns
e o cara se faz de desentendido: Ah, sim... obrigado. Eu nem estava me lembrando.
Não lembrar do aniversário é esquecer que nasceu.
Eu prefiro lembrar. Pode parecer piegas, mas eu curto os meus aniversários.
Gosto de receber os parabéns, adoro os abraços, os beijos, os e-mails,
os telefonemas, as mensagens... É todo mundo sabendo que ainda estou por
aqui e por aí.
Costumo dar presente pra mim mesmo neste dia: uma roupinha
melhor, um perfume mais caro, um bom vinho... Meus amigos me chegam com pacotes
e embrulhinhos coloridos. E lá vem disco, livro, camisa, meias (vários
pares!), carteira (umas cinco... não tenho tanto dinheiro assim), pijama...
Já me deram até uma pipoqueira usada. Não faz mal, lembraram-se
de mim. E coloco todos os presentes em cima da minha cama... todo mundo faz isso.
É brega, mas não é briga. Sei que ninguém vai entrar
lá pra ver os meus presentes em cima da minha cama. Sei que minha exposição
ficará aberta para a visitação pública de mim mesmo.
No fim do dia, recolho todos e vou guardando um por um, com um sorriso que sabe
misturar alegria, esperança e solidão.
Sinto o cheiro da infância voltando e deixo o meu coração
seguir o ritmo feliz de um coral improvisado dentro de mim, cantando o parabéns
pra você. E vou dormir em paz. Por isso comemoro os aniversários
que faço. Eles me garantem as realizações do meu ainda. Vou
abrindo os meus dias do novo ano que começo a viver. Manhãs embrulhadas
em cores e laços que devo desatar logo que me levanto. Cheirinho bom do
novo, da chance de sempre recomeçar, de não cometer os mesmos erros,
apesar de eu ser tão errado.
Cada dia do novo ano da minha nova idade é perdão
e oportunidade que a vida me oferece, é confiança que ela me deposita:
Vai, filho, você tem mais uma chance de ser melhor. E lá
vou eu, consertando, atrapalhando, consertando outra vez... E lá venho
eu, arrumando, bagunçando, arrumando outra vez... Pêndulo de carne,
osso, sangue e alguma coisa além do farelo que fica no túmulo. Sou
eu nascendo, morrendo e renascendo. Fênix cambeta, que escreve com sua própria
pena a respeito de suas penas e das penas dos outros.
É meu aniversário. Não conto os dias,
pois detesto matemáticas irredutíveis. Procuro vivê-los como
criança quando vê mágica. Acho que é isso o que me
faz tirar coelhos de cartolas vazias." José Antônio Resende UFSJ
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